Ligados Ao Passado - Capítulo XI
Ligados
Ao Passado
Capítulo
XI
Ainda
Naquela Noite...
Somente
o crepitar da madeira queimando era ouvido dentro da casa. Do lado de fora a
chuva ainda persistia, contudo, agora ela estava mais branda. Nuno se manteve
de costas para Ender todo o momento, após encerrarem as frases, ambos
mergulharam em lembranças da primeira vez que havia recitados juntos essa
poesia.
Eles
tinham um trabalho de literatura baseado em Shakespeare, e como tal, tinham que
ser dramáticos, poéticos e subjetivos. Obviamente Nuno fez o trabalho todo
sozinho, para variar. Lyan e Ender ficaram somente na parte cênica... Ambos se
recordavam das tardes de ensaio, das risadas e piadas que surgiam entre eles.
-
Sabe?! É reconfortante poder relembrar desse tempo sem sentir um peso esmagador
sobre você. Recordar nossos dias, nossas piadas, nossas brigas, nossos ensaios,
nossa união... Sabe de mais uma coisa? Acho que sem as lembranças de vocês, eu
vivia apenas sendo um fragmento do que eu sou... – Ender por mais insensível
que fosse a perceber certos momentos, compensava sendo direto. Sua objetividade
era algo incrivelmente admirável, quando usada no momento certo.
-
Compreendo... Eu também me sinto assim... Aliviado! Como se tivesse me
libertado de um par de algemas, mas, antes disso... Ainda tenho que analisar
com mais precisão como ficará minha vida em relação a essas coisas que
aconteceram no nosso passado, para finalmente me libertar por completo... Mas,
deixando isso de lado por hora... Temos que priorizar sua recuperação e
descobrir como sofreu esse acidente, ainda...
-
Eu sei bem como ocorreu o acidente, não há mistérios nisso – Ender interrompeu
Nuno.
-
Como ocorreu então? – Nuno virou-se de frente para Ender, mas antes que ele
pudesse começar a contar sobre o acidente, Nuno o interrompeu. – Espere! Vou
pegar um pouco de sopa para você. Assim que voltar você me conta o que sabe –
Ele saiu apressadamente para a cozinha, ele sentia que algo nessa conversa
seria estranhamente interessante.
Nuno
voltou rapidamente com uma tigela de sopa. Ele colocou o prato no chão e se
aproximou de Ender para colocá-lo em uma posição mais ereta. A cada passo que
ele dava, um nervosismo crescente se apoderava dele, agora ele não estaria o
tocando como um estranho ou como um médico, estaria o tocando como um antigo
“amigo” que após um longo tempo sem ver o outro passa a relembrar e redescobrir
certas características que foram esquecidas com o passar dos tempos.
-
Eu vou o colocar em uma posição mais ereta. Então... Se qualquer movimento te
causar algum desconforto, é só avisar. Especialmente, nas suturas que refiz,
elas devem estar extremamente doloridas, você ainda não está sentindo dor
intensa devido a uma pomada anestésica que utilizei, mas conforme o tempo for passando
a dor irá aumentar, gostaria de deixar isso avisado... E... Perdoe-me pela ação
que tomei. Minha ação imatura e precipitada o deixou nessa situação. Claramente
não é uma ação de um verdadeiro profissional, ou melhor, não é nem sequer a
ação de uma pessoa normal, ninguém deveria agir dessa forma. Agi igual a uma
criança mimada e, além disso... – Nuno começou a falar sobre as ações que
tomaria, mas logo se perdeu em meio à enxurrada de palavras que saíam, o que
era uma característica óbvia de seu nervosismo.
-
Tudo bem! – Ender havia percebido isso e estava tentando conter sua risada a
todo custo.
Quando
Nuno colocou Ender em uma posição de sentado. Ele sentiu como se tivesse várias
e várias agulhas sob a sua pele, espetando sua carne de um lado para o outro.
Ele rangeu seus dentes intensamente, mas aguentou até o fim. Nuno o olhava de
forma preocupada e ainda continuava falando, contudo, Ender não ouvia
absolutamente nada, ele estava mais concentrado nos trejeitos que Nuno
realizava, e os comparava com o garoto de 10 anos atrás.
-
“Tirando a aparência... O humor, os
gestos e expressões e a personalidades, continuam as mesmas” – Isso trazia
a ele uma sensação parecida com uma brisa soprada pela janela em um dia de
calor. Não é algo que chega a solucionar o problema, mas é algo que conforta e
ameniza.
-
Ender?! Ender?! Oi?! Está tudo bem? – Nuno pôs sua mão direita na face de Ender
e exerceu um pouco de força para força-lo a olhar para ele. Somente assim Ender
prestou atenção.
-
Desculpa! Você começou a falar e falar e falar e falar e falar e falar...
-
Tá okay! Já entendi! – Nuno sorriu.
Ender
o encarou e ficou em silêncio por uns 03 segundos, antes de continuar – E falar
e falar e falar...
-
Sabe que sou eu que irei ficar tratando suas feridas não é? Tenho dois métodos
para tratar elas, o modo “Cala a boca agora e nenhum processo irá doer” e o
método “Repita isso mais uma vez e irá ganhar uma estadia no inferno”.
Ender
sabia que Nuno não teria coragem suficiente para provocar dor em qualquer que
fosse o seu paciente, mas também não estava disposto a testar até onde sua
hipótese era certa, dessa forma, ele simplesmente fez o sinal de “fechar um
zíper na boca e jogar fora”.
-
Ótimo! Isso demonstra o quanto você é sensato – Nuno sentou-se ao lado de Ender
e pegou a tigela de sopa para alimentar Ender. Depois de lentas 04 colheradas,
Nuno não pode conter mais sua curiosidade. – Então... Você disse que sabe bem
como sofreu esse acidente, certo?
-
Certo.
-
E pretende me contar ou vou ter que aprender a ler mente?
A
feição de Ender mudou um pouco, parecendo preocupado e aborrecido. Ele ficou
seus olhos em algum ponto no tapete. Como se pensasse se realmente poderia
contar algumas histórias de sua vida que Nuno nunca soubera. Por fim, quando
ergueu seus olhos e encarou os olhos de Nuno, que estavam brilhando com a
intensidade de sua curiosidade, ele tomou sua decisão.
-
Bem...
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