Ligados Ao Passado
Capítulo VIII
Esclarecimentos
Nuno
ficou em silêncio, procurando em seu coração e sua mente as palavras que sempre
quis dizer. Contudo, ele não conseguia encontrá-las, pelo menos, não enquanto
encarasse aqueles olhos que brilhavam em fúria. Por mais que quisesse se livrar
desse peso, sua voz não o obedecia.
Lentamente
ele relaxou seus ombros e braços, os deixando livres ao lado de seu corpo. Ele
abaixou a cabeça e somente quando uma de suas lágrimas percorreu o seu nariz
lhe causando uma sensação de cócegas, que ele percebeu que estava chorando.
Ainda sem acreditar que aquelas eram suas lágrimas, ele levou sua mão a seu
rosto para verificar se estava úmido. Ele limpou as lágrimas de forma discreta
e se forçou a ir em frente com aquilo.
-
Recorda-se da sua festa de aniversário?... – Nuno começou de forma hesitante –
A de quando estava completando 18 anos? Que foi realizada naquele casarão de
festas antigo que tinha naquela fazenda de seus pais?
-
Sim, não é todo dia que você faz 18 anos! – Ender respondeu de forma ríspida.
-
Foi lá que tudo aconteceu Ender... Como pode ser tão mesquinho ao ponto de
fingir não saber do que estou falando? – Nuno já estava começando a se
enfurecer novamente, apesar de não demonstrar exteriormente.
-
Eu me lembro do que aconteceu naquele dia, lembro-me muito bem. Foi naquele
dia, que o inferno se concretizou na minha vida. No qual passei a perder tudo e
todos que eu gostava – Ender fechou os punhos com toda sua força, tentando não
erguer sua voz enquanto respondia, para que não causasse outra discussão – Nunca
imaginei que isso tivesse afetado você de alguma forma. Pelo que me recordo. Você
estava gostando muito do que aconteceu... O único a ser prejudicado em toda a
história naquele dia não foi você! Então, pare VOCÊ de se fazer de mesquinho e
de vítima indefesa! E me faça o favor de contar logo a porra dessa “história”
para que eu possa ir embora daqui.
-
Irei contar então! Mas com a condição de que me conte a “sua história” e de
como sofreu tanto. E então veremos quem tem a razão nesse caralho! Depois
disso, pode voltar para o inferno de onde saiu – Antes que Ender pudesse
respondê-lo, Nuno continuou dessa vez contando à história que ele vivenciou.
Na noite anterior ao
grande dia. Um jovem e iludido garoto, passou horas fazendo inúmeros planos
para o dia em que estaria junto com outro garoto. Seu trabalho era mantê-lo
ocupado durante todo o dia, dando chance da melhor amiga dos dois, fazer todos
os preparativos da festa. Sem dúvidas, aquele seria o seu dia mais feliz. Pela
primeira vez, desde a infância dele, estariam somente os dois juntos, sem a
presença da melhor amiga deles. E isso, por mais estranho que possa parecer, o
deixava nas nuvens. Ele podia ter toda a atenção do outro garoto somente para
ele.
O dia dos dois começou
bem cedo, antes mesmo de o sol surgir. Somente assim, eles teriam tempo para
cumprir a longa lista de coisas a serem feitas, coisas essas, que antes nunca
podiam ser feitas, devido à presença da amiga deles. Apesar de sempre quererem
muito, mas como só faziam algo que os três estivessem de acordo, quando um não
queria algo, os outros também não podiam fazer. Esse era o acordo.
Com isso, a primeira
coisa que fizeram foi uma escalada de uma enorme árvore que ficava próxima aos estábulos
dos cavalos do pai do garoto. O garoto iludido quase teve um infarto quando o
outro escorregou em um dos galhos e quase caiu e depois quase teve outro
infarto, dessa vez, de raiva, quando viu que o outro tinha feito de propósito
para assustá-lo e que agora estava rindo da reação que tivera. Depois de
alcançar a copa da árvore, os dois ficaram lá por um tempo, olhando o campo que
se estendia aos seus olhos. O que não era muito para o garoto iludido. Seus
grandes e quadrados óculos, limitavam sua visão, contudo, ainda conseguia ao
menos ver a luz do sol da manhã refletida nos olhos escuros do outro garoto ao
seu lado.
Ele ficou lá... Olhando
para ele com uma vontade de beijá-lo... Uma vontade cada vez mais crescente. Mas
logo esse feitiço se desfez quando o outro garoto o olhou e o pegou de surpresa.
- Está olhando o que? –
O garoto perguntou
- Nada – respondeu e
sorriu.
- Dá pra ver que não
esta vendo nada, seus óculos estão embaçados – Então ele pegou os óculos do
rosto do garoto iludido e soprou, aquecendo as lentes antes de começar a
limpá-las no casaco de lã que vestia – Aqui! Experimente agora.
- Melhorou muito!
Obrigado! – O garoto iludido sorriu, mas na verdade tudo o que queria ver
estava a sua frente, bem próximo a ele.
Mesmo olhando para o
sol surgindo enquanto começava a aquecer aos poucos o ar, sua atenção se
mantinha no calor que sentiu em suas bochechas quando o outro garoto soprou as
lentes de seus óculos.
Após descerem da
árvore, selaram dois dos cavalos mais rápidos e saíram cavalgando sem um
destino certo, enquanto faziam disputas e mais disputas para ver quem conseguia
cavalgar mais rápido. Mas não era surpresa que o garoto iludido se saísse pior.
Seus óculos balançavam em seu rosto e ele ficava com medo de derrubar e
quebra-lo. Então, o outro sempre se continha um pouco para não deixar o garoto
iludido para trás, além de que, para o outro garoto, aquilo era algo natural,
seus movimentos se complementavam com os movimentos que o cavalo que estava
montado fazia, enquanto para o garoto iludido era algo desconfortável e
dolorido.
Depois de quase 41
minutos cavalgando, chegaram à borda de uma mata fechada. Sempre tiveram
curiosidade de saber o que se escondia nela, mas nunca puderam ir devido à
amiga deles ter medo de entrar e se perder. Amarram os cavalos em uma árvore e
seguiram caminhando pela mata. Tudo trazia um sentimento de apreensão. As
sombras das árvores... O silêncio absurdo, quebrado às vezes por sons rápidos
de animais correndo... O vento silencioso e frio que às vezes chegava
lentamente em seus pescoços, fazendo com que se arrepiassem... Contudo, a
sensação de não reconhecer por onde entraram e como sairiam era a maior de
todas as apreensões para o garoto iludido.
A cada minuto que
passavam andando pela mata, mais assustado ele ficava. E cerca de 30 minutos se
passaram, o pânico começou a se instalar no coração do garoto iludido. Mas o
outro o acalmou segurando na mão dele, e o guiando pela mata até alcançarem uma
trilha. Quando os dois chegaram nela o garoto sorriu.
- Achei!
- Achou o que?
- Você verá! Pode até
ter planejado todo o dia de hoje como meu presente de aniversário... Mas, isso
não quer dizer que eu não tenha pensado em nada pra retribuir – Ele pegou a mão
do garoto iludido novamente – Por aqui! Vamos!
Os dois caminharam
seguindo a trilha, e quanto mais eles seguiam a trilha estreita, mais alto o
som de água caindo ficava. Por fim, quando chegaram ao local que o garoto
queria chegar. À visão que tinham, era de uma grande cachoeira com uma água
cristalina que escorria em meio a pedras escuras. Não era daquele tipo de
cachoeira que jorra suas águas expressando sua força, era do tipo em que a água
simplesmente fluía quase como uma cascata. Para completar a visão, ainda tinha
um lago que, aparentemente, era extremamente confortável, com o seu fundo todo
de areia branca e fina, daquelas que ao pisar faz parecer que está pisando em
um cobertor, e um rio que corria tranquilamente, levando aquela água para
locais desconhecidos.
Enquanto o garoto
iludido estava de boca aberta olhando tudo nos mínimos detalhes, o outro se
encaminhou para a borda do lago.
- Aposto 100,00 reais,
que essa água deve estar ótima para um mergulho! – Falou enquanto começava a
tirar o casaco e a camisa.
- O quê? Está maluco? O
clima está frio pra caralho! Essa água deve estar congelando! Espere...! Você
não está mesmo pensando em ir mergulhar, está? – O garoto iludido perguntou
incrédulo com a burrice do outro.
- Você? – O garoto riu,
enquanto começava a tirar o outro tênis do seu pé e se preparava para retirar a
calça – Quem disse que serei somente eu? Você também vai!
- Meu filho! Eu não
tenho um aquecedor embutido dentro de mim igual ao que você tem não! Se eu
colocar o pé ali, eu viro uma pedra de gelo – Apesar de ser contra a ideia, o
garoto iludido estava rindo, enquanto lentamente já se preparava para o que
veria a seguir.
- Então acho bom você
correr bastante porque se eu te alcançar é lá que você vai parar – E dizendo
isso ambos começaram a correr enquanto se divertiam e trocavam insultos.
Não demorou muito para
o garoto iludido ser pego. Até uns dois anos antes, ele era bem sedentário,
então não tinha a mesma energia que o outro, que sempre foi em forma. Quando o
garoto o alcançou, eles começaram uma pequena briga, um tentando tirar a camisa
e a calça e o outro tentando preservar suas roupas quentes em seu corpo, que
tremia só de pensar no gelo que a água deveria estar.
Dessa forma, o garoto
iludido se concentrou em passar os braços ao redor da cintura do outro para que
assim seu casaco e camisa não fossem retirados.
Após alguns minutos de
risada e luta, o garoto iludido pisou em uma pedra que acabou rolando e isso
fez com que se desequilibrasse... “E então ele caiu puxando o outro que caiu
por cima dele”. Não! Não! Se essa história fosse assim, seria clichê demais. O
que aconteceu foi que, quando se desequilibrou, ele acabou se ajoelhando, o
outro estava meio que por cima dele puxando a camisa pelas costas, dessa forma,
quando um se ajoelhou enquanto se inclinava um pouco pra frente quase
derrubando o outro de costas, o outro acabou levantando o joelho para por a
perna para trás a fim de conseguir se equilibrar. A única coisa que não saiu
certo foi que, ao fazer isso, seu joelho foi em cheio no nariz e nos óculos do
garoto iludido que quando sentiu o impacto, se jogou para trás, enquanto
colocava as mãos ao redor de seu nariz e rolava no chão e insultava o outro com
vários palavrões, que ao escutar, só fazia rir e rir cada vez mais.
- Foi mal! Hahahahaha!
Não tive culpa! Você que se abaixou de repente e me empurrou pra trás. Achei
que tivesse tentando me derrubar. Cadê? Deixa-me ver se machucou.
- É obvio que machucou
idiota! Quer que eu te dê uma joelhada no seu nariz? Mais fácil de mostrar se
machuca ou não – O outro só fez rir.
O garoto iludido
sentou-se no chão enquanto massageava o nariz.
- Está sangrando? – Ele
tirou suas mãos e olhou para o outro, que colocou uma das mãos ao lado do rosto
dele e inclinou o rosto dele de um lado e do outro para ver se as narinas
estavam sangrando ou não.
- Não! Seu rosto está
perfeito, Mister Perfeição! Já seus óculos...
O garoto iludido
assustado procurou seus óculos que estavam ao seu lado. Ao colocar no rosto, só
podia ver as incontáveis rachaduras que se formaram nas lentes.
- Meu Deus! Estou
ferrado... Sabe quanto essas lentes me custaram? Devia fazer você me pagar por
elas – O garoto iludido estava claramente revoltado.
- Ei! Ei! Não tenho
culpa se você resolveu dar narizadas em meu joelho, e veja pelo lado bom...
Você não tem mãe pra justificar como quebrou, já é um ponto positivo – O garoto
riu.
- Você é muito
retardado cara – O garoto iludido queria estar bravo, mas com uma resposta dessas,
não conseguiu conter-se e acabou rindo.
- Qual é? Vamos pular
no lago ou não? Não seja tão covarde! Além disso... – O garoto pôs suas mãos no
rosto do garoto iludido novamente – Você fica muito mais bonito sem óculos.
- Você está sendo muito
viado – O garoto iludido riu e retirou a mão dele do seu rosto. Por fora, ele
agiu como sempre agia quando estava com ele, sendo “o amigo” igualmente másculo
e pegador. Por dentro, seu coração estava acelerado, enquanto tentava não
surtar por ter recebido um elogio como aquele.
O garoto riu, ajudou
ele a se levantar. Quando o garoto iludido estava limpando seu casaco e sua
calça da terra que havia ficado quando ele deitou-se, o outro se aproveitou
descaradamente da oportunidade, para atacá-lo subitamente por trás, prendendo
suas mãos e o forçando a caminhar até um pequeno morro na borda do lago e de lá
o empurrar com roupa e tudo.
O garoto iludido
mergulhou na água gelada e após ressurgir ele começou a brigar com o outro, que
somente ria das palavras que ouvia, por serem ditas de forma trêmulas devido
aos dentes do garoto iludido bater um no outro a todo o momento.
- Você é muito mole!
Vou mostrar pra você como se faz – Ele deu alguns passos para trás, pegou
impulso e pulou no lago, fazendo com que água borrifasse por todo lado. Quando
ele apareceu novamente o garoto iludido estava saindo na margem do lago, de
forma desastrada devido ao peso das roupas molhadas.
- Melhor tirar elas e
voltar pra água. Logo seu corpo se acostuma com a temperatura. Já se ficar ai,
vai sentir mais frio ainda – Ele sorriu de forma maldosa.
- Ata! Sei! E onde viu
isso? Nos imbecis.com?
Ele se sentou um pouco
distante da margem e agarrou seus joelhos se encolhendo para ver se o frio
passava, contudo o vento não estava ajudando ele a se aquecer. Dessa forma, ele
se levantou, foi para trás de uma árvore tirou suas roupas e as pendurou em
alguns galhos baixos ficando somente de cueca. Depois ele correu e pulou para o
lago e para sua surpresa, dessa vez, a água não estava tão gelada quanto antes.
- Ora! Ora! Ora! O
filho pródigo retorna! A que devo a sua honrada visita? – O garoto riu e
continuou debochando dele.
- Simplesmente me faça
o favor de calar essa sua boca! E me deixe pensar um pouco – Ele mordeu seus
lábios que de vermelhos passaram a um tom arroxeado devido ao frio.
- Pensar em quê?
- Pensar em quanto
tempo terei de ficar nessa geleira até minhas roupas secarem. O clima está frio
e ainda não deve ser mais de 8h30min da manhã, ou seja, vou ter que passar umas
3 horas aqui, isso se o vento continuar assim e se não começar a garoar.
- Você pensa demais...
Por isso todo mundo te chama de Nerd ou de Projeto Professor Charles Xavier. –
ele riu – Se você continuar ficando com essa careca aí, realmente vai se
parecer com ele. Claro! Tirando a diferença de tom de pele.
- Ahhh! Vai se foder
seu arrombado do caralho. Vá ficar de rabo pra cima em uma chuva de pica!
Careca é o rombo que vou fazer na sua cara com o soco que vou te dar seu idiota.
Seu retardado dos infernos. Filho da puta. Vou te arrebentar agora seu viado –
Ele começou a nadar tentando alcançar o outro garoto, que somente ria dos
insultos dirigidos a ele.
Quando o alcançou, eles
começaram a lutar novamente. Mesmo o garoto iludido sabendo que suas vantagens
eram praticamente nulas, ele continuou tentando a todo custo afogar o outro,
nem que fosse por apenas alguns segundos, somente o suficiente para fazê-lo se
arrepender de ter o chamado de careca. Após alguns momentos o garoto prendeu
seus braços e o colou de costas junto ao seu corpo impedindo todos os seus
movimentos. Como estavam em um ponto fundo do lago, ele só podia continuar
balançando os pés para não afundar no rio e confiar que o outro garoto não o
afundasse. Mas estava difícil para ele se concentrar em alguma coisa quando ele
estava sentindo sua bunda ser pressionada em outros locais, que para ele
parecia estar meio duro. Evitando pensar nisso, ele disse que estava sentindo
sua perna doer e que talvez fosse cãibra (NT: Contração Muscular), assim, logo o outro garoto o soltou
e eles foram pra perto da margem, até onde pudesse se sentar de forma que o
corpo ficasse submerso e somente a cabeça deles ficasse a vista.
Lá, eles conversaram
por bastante tempo, sobre vários assuntos aleatórios e um que sempre se
repetia. Esse que se repetia era sempre sobre virgindade. Ambos ainda eram
virgens, cada um por razões diferentes, mas ambos tinham dúvidas em comum.
- Ei! Sabe de algo
legal? – O garoto perguntou expressando uma excitação cada vez mais crescente
enquanto esperava pela resposta.
- Não! O quê?
Finalmente conseguiu desenvolver um cérebro nessa caixa vazia que chama de
cabeça?
- Você é tão mal
humorado. Enfim, talvez eu me declare hoje para aquela garota que te falei e
bem... Se tudo der certo... Talvez eu perca minha virgindade hoje.
- “Nossa! Que legal!
Parabéns!”... Se for isso que está esperando ouvir de mim... Desista. Estou nem
um pouco a fim de comentar sobre isso. O pau é seu e você come quem você
quiser. Admira-me o porquê de você demorar tanto. Metade das meninas da escola
gostaria de dar pra você. Você que é burro e não se aproveita da situação.
- Wow! É isso mesmo?
Tenho alguém com ciúmes de mim? Não acredito! – O garoto iludido somente olhou
de forma irônica e revirou os olhos. Já estava habituado a esse jeito vaidoso
do garoto – Não é por que eu sou meio bruto assim que eu não quero ter algo
especial com alguém que eu goste, entende? Sem falar na minha família. Minha
mãe é paranoica com esses assuntos, ela mesma diz que só fez essas
“trivialidades” duas vezes para gerar o meu irmão e eu. Não sei como meu pai
suporta isso. Ambos acreditam nisso de que sexo serve somente para ter crias e
pronto, se fazer por prazer é pecado.
- Isso não tem sentido
algum! Sua família é meio perturbada. Seu irmão é assim também? Por que se for...
Sinto muito! Mas não tem muitas esperanças para você.
- Meu irmão? Ele
começou quando tinha 13 anos com a empregada lá de casa. Eu mesmo peguei no
flagra. O que foi imensamente melhor do que se fossem nossos pais. Eu o
entendo, ela era muito bonita e gostosa.
- Uau! E a empregada
tinha quantos anos?
- 19. Ela era...
- Okay! Não precisa me
contar os detalhes – O outro garoto sorriu.
- Tudo bem. Mas e você?
Nunca te vi falando sobre quando pretende perder a virgindade... E você tem
tantas pretendentes quanto eu, e ainda por cima tem a regalia de morar em uma
casa grande, e sozinho praticamente.
- Quem disse que ainda
sou virgem? – Ele riu da reação que o outro garoto teve.
- Se você não fosse...
Você teria me contado já... Não é?
- Porque te contaria?
- Ah! Não sei. Talvez
porque sou seu melhor amigo?
- E o que isso tem a
ver com a minha vida sexual? – Ele estava segurando a risada. O outro garoto
sempre acreditava em tudo que falasse. Isso o deixava indeciso entre saber se o
outro garoto era ingênuo mesmo ou somente burro.
- Não acredito em você!
- Nossa! Isso vai fazer
uma diferença enorme em minha vida agora. Nem vou conseguir respirar mais se
você não acreditar em mim.
- Sabe como sei que é
mentira?
- Essa eu quero ouvir!
Como você sabe que é mentira? – O outro garoto sorriu.
- Vieram me falar que
você não sabe nem beijar. Então o que dirá fazer alguma outra coisa – O garoto
iludido ao invés de rir disso, ficou profundamente indignado. E lógico. Essa
era a intenção do garoto desde o inicio.
- Vai se foder!
- Wow! Calma! Eu te
defendi quando ouvi isso. Disse que com esses seus lábios você só não beijaria
bem, se não quisesse. E que se o beijo foi ruim foi porque você beijou por pena.
E antes que diga que estou inventado. Quem me falou sobre isso foi a Lizz do 2º
ano.
- Aquela... Filha da
mãe... Como ela pode dizer isso? Eu beijo muito bem. Ninguém nunca reclamou.
Como ela se atreve a dizer que não sei beijar?
- Eu te defendi, mas tenho
certeza que ela está certa – O garoto começou a rir com a cara de ódio que o
garoto iludido fez.
- Quer que eu te prove
ou o quê? – Ele falou por raiva, levado pelo momento.
- Quero que prove!
- O quê? – Arregalou os
olhos, se surpreendendo – Não preciso provar nada a ninguém!
- Vai fraquejar agora
é? Eu sabia! Além de beijar mal, é covarde. Que coisa feia pra sua imagem,
Mister Perfeição – O garoto se inclinou para trás, apoiando as mãos no fundo do lago e deixando seu corpo flutuando na água, enquanto fechava os olhos e sorria
de forma convencida.
Muitas coisas se
passaram na mente do garoto iludido naquele momento. Era uma oportunidade que
nunca se repetiria novamente em sua vida, mas ele era seu melhor amigo e
certamente não se sentia da mesma forma que ele, então, o que fazer?
Aos poucos, seu corpo
começou a se mover, como se fora de seu controle. Com uma mão ele apoiou o peso
de seu corpo no fundo do lago e com a outra segurou na parte de trás da cabeça
do outro garoto. Como estavam próximos, seus movimentos foram rápidos, precisos
e silenciosos, e quando o outro garoto percebeu, já não havia espaço para que
ele fugisse e antes que falasse algo, o garoto iludido o silenciou com seus
lábios. O beijo foi rude e brusco no começo, só houve o contato dos lábios e
ele achou que ficaria somente assim, já que ele não tinha coragem de continuar
aprofundando o beijo. Quando estava prestes a sair, sentiu os outros lábios se
abrirem levemente e envolverem o seu lábio inferior. Ele não esperava ser
correspondido e isso fazia seu coração acelerar. Ele também abriu os seus e
então ambos começaram a se alternar entre um envolver os lábios do outro.
Era como uma passagem
só de ida para ele. Aos poucos tudo ao redor sumiu de seus sentidos, todos os
pensamentos que tinha em sua mente desapareceram, e restaram somente aqueles
lábios e o calor que eles provocavam. Quando achou que não poderia ficar ainda
melhor, sentiu algo invadir sua boca, começando a explorá-la aos poucos, logo,
ele passou a corresponder, sentindo sua língua encontrar a do outro garoto, que
era incrivelmente suave e quente. Ele estava quase fora de si, sua respiração
estava ficando ofegante e estava começando a inevitavelmente ficar excitado,
mas ele não se importava, só queria continuar e continuar... Quando o outro
garoto sugou sua língua e depois mordeu seu lábio inferior foi inevitável
conter que um gemido escapasse. Quando isso aconteceu, toda a névoa que
envolvia seus pensamentos foi desfeita e somente então, ele abriu os olhos de
forma sincronizada com o outro garoto, que também abriu os olhos no mesmo
momento. Eles se encararam e depois de um tempo se afastaram um do outro.
Sentaram-se novamente e logo após, somente o silêncio reinou entre eles.
Ficaram em silêncio por
vários minutos enquanto se perdiam em seus pensamentos. O garoto iludido
tentava pensar em quantos minutos passaram se beijando, parecia que foram
horas, de modo que sua respiração ainda estava desregulada e sua excitação
estava incontrolável. Por sorte, o outro garoto não havia olhado para ele
quando terminaram o beijo, como a agua era clara e límpida, ela não escondia
absolutamente nada. Após quase 20 minutos o silêncio foi, finalmente, quebrado,
pelo garoto iludido.
- Acho que já está na
hora de voltarmos, ainda tem muita coisa para a gente fazer – o garoto iludido
lembrou ao outro de forma hesitante.
- Você que manda... –
Então ele ficou de pé e caminhou até onde suas roupas estavam sem a mínima
dificuldade ou expressão de que estivesse com frio.
O garoto iludido também
se levantou e foi até a árvore que deixou suas roupas penduradas. Para seu
desânimo, elas ainda estavam úmidas, mas uma roupa úmida era melhor que somente
uma cueca molhada. Quando estava prestes a vestir a camisa, o outro garoto
chegou com as suas roupas e estendeu para ele.
- Aqui! As minhas estão
secas, então você pode vesti-las, vai se aquecer mais rápido assim – Colocou as
roupas na mão dele enquanto pegava as que estavam úmidas para vestir.
Vendo aquilo o garoto
iludido não podia ficar calado, mesmo sabendo que o outro garoto tinha uma
temperatura corporal bem mais elevada que a sua. Não seria certo o deixar usar
suas roupas úmidas. Quando ia protestar o outro garoto desceu sua cueca,
ficando pelado em sua frente. Apesar de já terem se visto pelados quando
criança, as coisas estavam bem diferentes, os dois já estavam “maduros”, e pelo
menos para um dos dois, isso provocava um calor diferente. Ainda sem acreditar no que estava vendo, o garoto iludido
rapidamente se virou de costas e esperou o outro se vestir para poder retirar a
sua própria cueca e vestir a roupa, mas de repente duas mãos desceram a sua
cueca.
- Qual é? Não vai dizer
que está com vergonha de mim agora? – O outro garoto riu e deu a volta até
ficar de frente ao garoto iludido que cobriu sua cintura com a camisa – Já sei,
ficou com vergonha porque o meu pau cresceu e o seu...
Quando o garoto ia
falar “pequeno”, o garoto iludido teve um pequeno acesso de vaidade e retirou a
camisa, enquanto com um olhar de desafio disse – Pequeno? Acho que não. Parece
que nisso empatamos.
O outro garoto ficou
vermelho de vergonha, talvez ele não esperasse essa ação do garoto iludido. E
quando se encararam, ambos ficaram em silêncio, constrangidos demais para
continuar alguma conversa, restando à opção de somente terminarem de se vestir
e irem embora. Depois disso...
-
Você realmente vai contar todo o nosso dia juntos? Pode pular pra parte onde eu
te machuco. Por favor? Se não se importa, está ficando tarde e quero sair daqui
ainda hoje... – Ender interrompeu Nuno com impaciência, estava sendo incomodo
demais para ele relembrar essas cenas ouvindo que os desejos de ambos eram o
mesmo.
-
Fecha o cú aí que a história é minha e eu conto da forma que eu quiser, quando
for à sua vez, você fala do seu jeito. Continuando...
...Passaram o dia cumprindo todos os itens da
lista, desde os mais idiotas, até os mais perigosos. No fim do dia, ambos
estavam cheios de arranhões, hematomas, dores e cansaço, sendo assim, tomaram
banho e foram se preparar para a festa. O garoto sabia que teria uma festa,
porém, ele achava que a festa seria em outro local e que todos estariam lá, ele
não esperava que quando fosse buscar o carro que estava estacionado próximo ao
casarão para ir até o local da festa, seria recebido com uma enorme e extravagante
surpresa, com direito a pilhas de confetes explodindo e vários apitos, que
faziam um barulho ensurdecedor enquanto as pessoas começavam a sair, cada uma,
de um canto diferente.
Foi uma grande festa. Começou
cedo, por volta das 17 horas da tarde e começou a esvaziar perto das 3h30min da
manhã. Nesse ponto, todos já estavam bêbados ao extremo, especialmente os dois
garotos, que durante toda a festa ficaram competindo, virando copos e mais
copos de bebidas. Até então eles ainda estavam bem um com o outro, se abraçavam
e não desgrudavam um do outro, mas de repente o outro garoto foi sequestrado por
uma bela garota que o garoto iludido achava familiar, mas que não conseguia
reconhecer e entre danças e mais danças, eles se beijaram... Aquilo de alguma
forma machucou bastante o garoto iludido, que teve naquele momento, sua
primeira rachadura na ilusão daquela amizade.
Quanto mais ele olhava,
mais sem ar e com mais raiva ele se sentia, quando viu a garota puxando ele
para um dos quartos do casarão, recebeu sua segunda rachadura e sem o que fazer
ele decidiu sair para o lado de fora e tentar se estabilizar um pouco enquanto
bebia vodka diretamente do litro. De repente um homem chega ao seu lado,
colocando a mão sobre o ombro dele e apertando.
- Vai com calma amigo.
Ainda tem mais vodka lá dentro, não precisa virar tudo de uma vez.
- Quem é você? Meu pai
por acaso?
- Bem que me falaram
que você tinha uma língua afiada para responder aos outros.
- Isso cara! Volta a
falar de mim com os outros e me deixa aqui de boa. Você vai ganhar bem mais com
isso. Não estou com um bom humor caso não tenha percebido.
- Wow! Você é mais
esquentado que meu irmão, como vocês podem ser amigos? Devem brigar a cada 5
segundos, han?
O garoto até então não
havia olhado para o homem que estava ali o enchendo á paciência. Quando olhou,
era inegável o parentesco que existia entre ele e o seu amigo, ambos eram
extremamente parecidos, a única diferença consistia no timbre de voz e em um
alargador na orelha, de resto, as diferenças eram mínimas, se ele não soubesse
que seu amigo não possuía alargador, ele diria que eles eram gêmeos.
- Mas que porra é essa?
Vocês são gêmeos por acaso? Ele me disse que você era somente 1 ano e meio mais
velho que ele... Mas... Vocês são praticamente iguais... Ou é minha visão que
não está boa sem meus óculos... Ou eu bebi demais... Dane-se, não sei de mais
nada.
- Você é engraçado.
- É? Sou não sou? Só
falta o nariz de palhaço pra completar o figurino.
O homem deu uma risada
curta.
- Agora entendo porque
ele gosta de você... Mas... Não entendo porque você gosta dele. Ele é bem
idiota, imprestável e egoísta, não é?
- É! Ele é bem idiota,
imprestável e egoísta sim, mas nos conhecemos há 10 anos. Então já me
acostumei. Já você! Conheço a menos de 10 minutos e insultar meu amigo mesmo
sendo irmão dele, não é um bom início de conversa. A propósito porque nunca o
vi antes? Trabalha como fantasma na família de vocês ou o quê?
- Eu moro com meus avós
desde os meus oito anos... Alguns problemas familiares, então... Somente... Os
visito... Ás vezes... Mas me diz, porque está aqui com ciúmes do meu irmão?
- Quem disse que estou
com ciúmes dele?
- Bem... Não sou idiota
como ele. Ficou óbvio quando você o viu pegando aquela menina e saiu de lá
quase correndo. Mas, relaxa. Não vou contar para ninguém sobre isso.
- Você não bate bem da
cabeça. Não é?
O homem riu novamente.
- Já disse! Relaxa. Não
vou contar a ninguém. Na verdade, sou como você, se é que me entende. Só vim
aqui pra te dar um aviso.
- Primeiro! Não sei do
que está falando quando diz que é igual a mim, está mais para igual ao seu
irmão e segundo, se der esse aviso você vai embora e me deixa sozinho?...
Geralmente, eu me levantaria e sairia, mas... Cheguei aqui primeiro. Sabe?
Então... Se você se tocar disso e puder sair, ajudaria. Quem sabe assim, eu
passo a gostar um pouquinho de você também?
- Claro. Apesar de que
assim que você ouvir o que tenho a dizer, acho que você vai sair correndo em
menos de um segundo... Enfim, na verdade, aquilo foi uma encenação do meu irmão
para ver se você ficaria com ciúmes. Ele me deixou encarregado de ficar te
observando e caso você ficasse com raiva, era para eu vir aqui te avisar de que...
– Ele tirou um papel do bolso da calça – “Nuno, hoje passei o dia inteiro ao
seu lado, e apesar de este dia representar o fim da minha infância, ele também
representa o começo da minha vida adulta, e nela, espero que você esteja ainda
presente. Hoje, tivemos o dia inteiro para nós, e isso me mostrou que quero
continuar tendo esse “nós” para sempre. O que quero dizer é que... Quero você
na minha vida como meu melhor amigo, meu melhor conselheiro e se você
aceitar... Meu melhor namorado. Lamento por estar dizendo isso dessa forma, mas
você sabe. Sou complicado com palavras, elas nunca saem facilmente. Mas se
quiser ouvi-las dos meus lábios... Só vir no quarto que entrei com aquela
menina. Estarei te esperando. E antes que venha com toda sua raiva (Risos),
lamento por te causar ciúmes, nós não estávamos nos beijando. Era só encenação,
nos posicionamos no ângulo exato para que você não pudesse ver que era falso. E
lamento por esta carta estar chegando através das mãos do meu irmão... Mas
saiba que não lamento por fazer tudo isso para ter certeza se você pode ser
capaz de me amar assim como te amo!”. Esse é o aviso que ele me pediu para te
repassar.
- Isso é impossível!
Acha que sou idiota ou o quê?
- Se não acredita veja
a letra... É a dele, certo? E a forma da escrita, as palavras que usa, e ele
descreve o que vocês fizeram hoje, e pelo que entendi, só estava vocês... Então
como é impossível?
- Eu não sei... Só sei
que... Não pode ser... Pode?
- Saberá se for naquela
sala e falar com ele.
Inocentemente o garoto
se levantou totalmente dormente, meio tonto e acima de tudo, feliz... Caminhou
pelo corredor até chegar ao salão, que ainda havia algumas pessoas dispersas. Uma
ou outra dormindo em um dos sofás, algumas se curtindo, outras dançando ao som
de Goo Goo
Dolls – Iris¹...
Nesse momento Nuno parou sua narrativa, respirou por
alguns segundos de forma profunda e antes de continuar ele fez um breve
comentário – Engraçado como essa música se encaixou perfeitamente em como eu me
sentia caminhando naquele trajeto da varanda até o quarto. Naquele dia, achei
que essa música ia ser a que iria me trazer as melhores lembranças, hoje... –
Ele balançou a mão, sinalizando que não importava – Enfim, continuando...
O garoto
iludido entrou no quarto. Estava escuro. Demorou um tempo até sua visão se
acostumar, então ele ficou na porta por um tempo. Quando sua visão se acostumou
com os contornos dos móveis velhos no quarto, que era mais um depósito que um
quarto, ele entrou e fechou a porta, chamou uma... Duas... Três vezes pelo sobrenome
do outro garoto. Quando não teve resposta, ele caminhou até o centro do quarto,
e viu em uma estante coberta de poeira algo que parecia ser uma rosa em cima de
um cartão, o garoto sorriu. Como não poderia sorrir não é? Tudo estava
perfeito, apesar da clara bagunça e desordem dentro daquele quarto. Ele se
encaminhou até a estante, pegou a flor e a cheirou. Como sua visão era
extremamente ruim, achou que era uma rosa, mas seu cheiro mostrou que estava
errado, era um Lírio Amarelo². Quando pegou o cartão a primeira coisa que
pensou foi “Como ele é tão burro? Como vou ler essa merda sem óculos e no
escuro?”, mas ele ainda estava sorrindo. Esticou sua mão para a parede à
procura do interruptor para ligar a luz... Mas de repente alguém o segura por
trás, prende suas mãos com algemas, depois coloca um pano dentro da boca dele
no momento em que ele pretendia reclamar, depois o amordaça, depois cobre seus
olhos com um pano e depois o joga em cima de uma cama que tinha um cheiro
repugnante de mofo.
Raiva domina
o garoto iludido, ele pensa “Quem você pensa que é pra fazer a merda de uma
brincadeira dessas? Acho bom você tirar essa algema, antes que eu fique com
ainda mais raiva de você. É bom não estragar tudo com essa sua burrice”. O
garoto sente suas roupas sendo rasgadas e sendo retiradas peça por peça, ele se
assusta, quer chamar pelo nome do outro garoto. Mas não consegue... Que bater
nele, mas não pode se mover... Além de suas mãos estarem presas atrás de seu
corpo alguém está sobre ele.
O peso, as
mãos, a força, tudo só lembra a ele uma pessoa. Sem sua visão que já limitada
para distinguir os contornos, com seus ouvidos somente captando a respiração e
o som de outra música que está a tocar na altura máxima³, só lhe resta um
sentido, seu olfato. Desesperado, ele tenta sentir o cheiro daquela pessoa, mas
só sente o cheiro do Lírio... Então o peso sai de cima de si. E ele respira
aliviado, pensando que finalmente aquela brincadeira estúpida acabou, mas
depois escuta uma risada familiar e alguém chega perto ao seu ouvido...
- Ei, Rey!
Quem disse que já pode descansar? Estamos somente começando... Eu disse que se
tudo desse certo hoje, eu perderia minha virgindade, certo? Quem melhor do que
você para me proporcionar isso? Sei que você quer também...
Então o
garoto é virado de bruços. Ele se agita. Não resta dúvida, é realmente a pessoa
que ele temia que fosse. Então, ele pensa desesperado “Porque está fazendo isso
comigo? Não somos amigos? Você não me ama?”.
Então lá
está o peso sobre si novamente, e então... Não há nada. Tudo fica quieto por um
ou dois minutos, depois... Uma dor o preenche, uma dor que não é possível de
descrever. Ele quer gritar, mas não consegue. Seu corpo fica rígido e devido a
isso, ele leva um soco na base de sua coluna, mas ele somente sente a pancada,
nada supera a outra dor que sente cada vez indo mais fundo dentro de si.
Lágrimas brotam em seus olhos, mas o pano as impede que sequer saiam. Ele
simplesmente não se pertence mais, tudo o que faz ser ele, passa a ser, uma a
uma tirada dele, sua voz, sua visão falha, seus movimentos, seus direitos sobre
seu corpo, sua primeira vez...
Então ele
sente alívio, a dor insuportável passa para uma dor suportável. Mas então, sua
cintura é erguia e algo é posto embaixo, fazendo com que ele fique com sua
bunda empinada. Ele sabe o que vai acontecer, mas... O que ele pode fazer para
impedir? E antes que possa se preparar, lá está à dor novamente, só que dessa
vez, pior que antes...
- Sente isso
Rey? Agora ele está todo dentro de você! Agora sim vamos experimentar o prazer,
certo?
O garoto
iludido não sabe quantas vezes desmaiou e acordou naquele resto de noite. Tudo estava
sendo movida na base da dor, sem descanso, a dor o colocava para dormir e a
mesma dor o acordava. Já na última vez que acordou, seus ouvidos captaram ao
fundo duas estrofes de uma música que ele desconhecia, mas que foi responsável
pela terceira rachadura na ilusão, juntamente, com olhos de um castanho-escuro
que o encarava e lábios fechados em uma linha firme, sem espaços para sorrisos.
O que era dito na música se contrastava com a voz que saia dos lábios daquele
garoto. O garoto, agora desiludido, não conseguia enxergar muita coisa, o pano
só permitia a ele uma pequena brecha, sendo assim, só podia fixar sua visão nos
olhos castanho-escuros ou nos lábios. Ele optou pelos lábios. O que ouviu entre
as frases da música4 e frases pronunciadas por aquele garoto foi:
[MÚSICA]
Vimos nossa quota de altos e baixos
- Sempre soube que era um viado...
[MÚSICA] Oh,
a rapidez com que a vida pode mudar em um instante.
- Durante toda a nossa infância eu
soube...
[MÚSICA] Parece
ser tão bom reunir
- Tenho certeza que você gostaria...
[MÚSICA]
Dentro de si mesmo e dentro de sua mente
- Bem mais...
[MÚSICA] Vamos
achar a paz lá
- Se fossem vários caras te
comendo...
[MÚSICA] Quando
você está comigo
- Quem sabe não mando uns virem aqui...
[MÚSICA] Eu
sou livre... Eu sou despreocupado... Eu acredito
- Te mostrar como é...
[MÚSICA]
Acima de todos os outros, nós voaremos.
- Ser uma putinha de verdade?...
[MÚSICA] Isso
traz lágrimas aos meus olhos
- Para você ter todos os seus
buracos
[MÚSICA] Meu
sacrifício
- Preenchidos do jeito que gosta...
O garoto
desiludido riu nesse momento, sem saber se a música estava lhe dizendo coisas
pelas quais se segurar enquanto aquilo não terminava ou se ela complementava o
que o garoto dizia. Com isso recebeu um soco em seu rosto. Estrelas rodaram em
sua mente, logo após, sentiu o gosto metálico do sangue preencher sua boca, o
sufocando, já que não podia cuspir e nem engolir o sangue. Aos poucos ele
caminhou para o escuro novamente, enquanto ouvia o garoto gemer e sentia-o estremecer
sobre seu corpo alcançando seu clímax. Depois disso... Nada... Somente cacos
quebrados. A ilusão se desfez, e já não existe mais um garoto iludido, não
existe mais nada...
Nuno e Ender se encaravam no quarto, ambos sem dizerem
absolutamente nada. Após o que pareceram horas de um silêncio mortal, Ender
quebrou o silêncio, não com palavras, mas com soluços desesperados de choro.
- Eu... – Ele não conseguia pronunciar absolutamente
nada, aquilo era culpa dele, realmente era culpa dele.
Nuno não aceitava a reação de Ender, para ele, aquilo
era puro fingimento, mas apesar de tudo, ainda doeu em seu peito. Foi à
primeira vez que o viu chorar assim e isso o surpreendeu, mas não amoleceram
seu coração.
- As lágrimas já secaram Ender. Acredite já chorei
todas as lágrimas que podia naquele dia, não tem sentido você estar chorando
por essa história, digamos que de lágrimas, ela já esta cheia. Agora ande logo
e me conte a sua versão da história. Ainda temos um acordo a cumprir.
Ainda demorou quase 20 minutos para que Ender pudesse,
finalmente, se estabilizar. Quando finalmente conseguiu, ele pensou em pedir
desculpas novamente, mas desistiu, e se focou em como fazer com que sua
história fizesse Nuno entender o que realmente aconteceu naquele dia.
- Antes de iniciar, quero dizer logo que a minha
história será crua, não terá todos os detalhes que se equiparem a sua, vou
dizer somente o que senti e o que me aconteceu naquele dia. Depois... Poderá
tirar suas conclusões.
Nuno assentiu com a cabeça, Ender engoliu com
dificuldade e então começou sua versão da história.
- Aquele foi o dia decisivo para que eu pudesse ter a
certeza sobre se gostava de você em um sentido que ia além da amizade. Eu sempre
ficava confuso em como me sentia com você ao meu lado. Não entendia porque de
sempre sorrir de qualquer besteira quando estava com você, nem o porquê de ser
tão atencioso quanto a sua saúde e alegria. Simplesmente, não conseguia
distinguir se eu o amava como um irmão que nunca tinha tido ou se eu
simplesmente o amava. Quanto a essa segunda opção, eu ficava com medo de pensar
sobre ela. Você sabe. Minha família sempre tratou esse tipo de assunto de forma
muito radical. Uma vez quando meu irmão era criança ele beijou um amigo da sua
sala na frente da nossa mãe, e mesmo sendo brincadeira, ela o mandou para um
colégio interno administrado por padres e depois para um colégio militar. Então
tinha medo de pensar sobre você dessa forma e acabar sendo obrigado a ver você
ser retirado da minha vida.
Nuno se aproximou da cama com dificuldade, seu corpo
estava rígido devido a toda a tensão que sentiu se recordando com tantos
detalhes dos acontecimentos que vivenciou. Tudo o que queria agora, era sentar
um pouco, e ainda contava o fato de que a cada frase, Ender diminuía o som de
sua voz, o obrigando a se aproximar para ouvir melhor.
- Mas voltando à história... Quando ouvi você dizer
que meu presente de aniversário seria um dia inteiro em sua companhia exclusiva
fazendo uma lista de atividades que você me diria somente no dia, eu imaginei
mil coisas para te surpreender também. Mal consegui dormir de tanta ansiedade.
O que mais queria era que o dia amanhecesse logo para que eu pudesse te levar
até aquela cachoeira – Ele sorriu – Desde o momento em que nós subimos naquela
árvore... Eu comecei a perceber que não poderia ficar nem sequer um dia sem ver
você olhando para mim com aqueles enormes óculos embaçados. Eu comecei a
perceber que eu realmente queria ter algo com você, mesmo preocupado com todos
os desafios que iria enfrentar em minha família, e mesmo com o conflito de
tentar entender porque somente você despertava e desperta isso em mim. Nenhum
outro cara me atraía e nem mesmo hoje, me sinto atraído por outros homens. Já
com garotas. Sempre me sinto excitado ao olhar para elas. Ver suas curvas e
sentir o toque das mãos macias delas. Com você tudo era e ainda é... Diferente.
Isso me deixava realmente confuso entre o que eu era/sou, pois ainda hoje tenho
essa dúvida em mim a cada segundo que olho pra você.
Ender fixou seus olhos nos de Nuno, buscando encontrar
algum indício de que sua história estava superando a muralha que se encontrava
em sua frente.
- Quando chegamos naquela cachoeira e começamos a
brincar de luta igual dois moleques, nunca me senti tão feliz. Naquele dia,
nunca senti uma vontade tão grande de beijar alguém, como senti, quando
coloquei minha mão no seu rosto quando me perguntou se seu nariz estava
sangrando – Ele abaixou seus olhos – Se não tivesse retirado minha mão e dito
que estava agindo daquela forma, eu certamente o teria beijado. Mas aquela foi
somente à primeira vez que tive vontade de beijar você naquele dia. Depois foi
quando vi você mordendo seu lábio – Ele sorriu – Esse é uma mania sua que eu
realmente queria odiar, mas ela sempre se manteve acesa em minha mente, mesmo
depois desses 10 anos. Essa sua mania sempre faz com que me sinta nervoso e
excitado ao mesmo tempo. A terceira vez... – Ele hesitou – Foi quando o
pressionei contra meu corpo e o senti como nunca havia sentido antes...
Ender ergueu os olhos para Nuno que desviou o olhar
por um segundo antes de voltar a retribuir seu olhar. Para Ender, aquele
pequeno segundo, representou uma enorme onda de esperanças.
- Aquelas poucas horas representaram o melhor momento
de toda uma vida para mim. O ápice... Foi quando após toda a minha provocação,
você me beijou. Não soube como reagir no começo. Seus lábios eram macios e
doces, e essa sensação deles encostando nos meus, me deixou paralisado. Quando
começou a se afastar de mim, soube que tinha que agir, ou então perderia de
explorar seus lábios até o final. Lembro-me de envolver seu lábio inferior e
depois você me retribuir. Lembro-me de como eu podia sentir sua tensão aos
poucos desaparecer, fazendo com que seu beijo ficasse cada vez melhor, acabando
por me levar a outro mundo em questão de segundos. Eu queria mais... Queria o
sentir cada vez mais... Então coloquei minha língua em sua boca, e nunca senti
uma sensação de desejo tão forte crescer dentro de mim. E então veio o momento
em que ouvi seu gemido e nossa... Não resisti a não abrir os olhos para ver sua
expressão de prazer, mas o encontrei me encarando e então o momento se perdeu.
Mas meu desejo não diminuiu. Agora que ouvi isso de você, percebo que nem eu e
nem você olhamos direito um para o outro após o beijo, porque eu também estava
excitado. Passei um bom tempo pensando exatamente a mesma coisa que você estava
pensando, mas ao contrário de você, decidi tentar mais uma coisa quando estávamos
indo embora. Nunca estive tão nervoso em ficar pelado na frente de outro homem.
Para mim era algo natural até então, mas naquele momento... Com você ali... Só
pensava se eu era bonito o bastante, se era em forma o bastante, se o agradaria
ou não, se você me compreenderia ou não, se isso era certo ou errado para você,
se me odiaria pelo que eu estava fazendo ou não. Mas ainda assim, continuei –
Ele engoliu com um pouco de dificuldade nesse momento – Ver você me evitar, de
forma tão rápida. Deixou-me com muito medo de ter sido impulsivo. Então,
tentando fazer com que a situação não ficasse estranha, fiz as minhas apostas
em tratar aquilo como mais uma das “minhas brincadeiras”. Então reuni coragem
para puxar sua cueca, e claro, eu queria vê-lo também – Ender sorriu com o nervosismo
vendo o brilho de raiva que começou a aparecer em certos olhos – Fiquei
apreensivo quando se cobriu, mas quando vi que estava somente com vergonha, eu
relaxei e então decidi tentar te provocar, mas não esperava por aquela sua
atitude. Quando me mostrou tudo... Bem... Não sei... Senti um misto de emoções
se misturarem dentro de mim. Não sabia como reagir. Não sabia como algo não
muito diferente do meu, poderia ser tão bonito. Então quando nos olhamos
novamente, fiquei constrangido e não pensei em mais nada para prolongar aquele momento,
e então ele passou, mas a sensação ficou comigo durante todo o dia.
O celular de Nuno começou a tocar em cima da cômoda,
ele levantou-se e foi até ele fazendo com que Ender aos poucos parasse sua
narrativa.
- Pode continuar... Estou ouvindo. Só vim desligar o
alarme, está na hora de seus remédios – Nuno começou a mexer na cômoda a
procura da caixa de luvas, as calçou e se abaixou ao lado da cômoda. Primeiro
retirando um quite com algumas seringas descartáveis, depois de por a agulha,
ele abriu um cooler elétrico e retirou um frasco de analgésico. Enquanto isso,
Ender continuou sua narrativa.
- Durante a noite, enquanto tomava banho, não resisti
e tive que aliviar toda a minha tensão acumulada durante o dia, todo o desejo
que tive que reprimir – Nesse momento, Nuno aplicou a agulha sem piedade,
indicando que ele poderia descartar essa parte da história – Au! Após isso...
Arrumei-me e esperei pacientemente pelo meu parceiro que me acompanharia até a
minha festa – Ender começou a sorrir nessa parte – Quando vi você vestido
daquela forma, com uma camisa social branca estilo slim fit, aquela calça jeans
escuro apertando suas coxas as deixando ainda mais grossas e sem óculos. Nossa!
Meu coração bateu rápido por vários segundos. Até aquele momento, me lembro de
ficar rindo e olhando para você. Quando chegou onde eu estava você parou na
minha frente e perguntou “O que foi?” usando
aquela expressão que sempre faz, levantando a sobrancelha. Não consegui dizer “Você está lindo!” então, simplesmente
disse “Nada, Mister Perfeição. Cuidado
para não arrebentar as pernas da calça com essas coxas”...
- Me lembro disso. Depois você resolveu beliscar
minhas pernas. Então, te dei um soco no peito e sai andando, até que... – Nuno
interrompeu a narrativa de Ender, enquanto ficava de costas, pegava uns
comprimidos que estavam próximos ao velho baú junto com uma jarra de água e
enchia um copo.
- Eu apertei sua bunda e saí correndo para ir buscar o
carro, enquanto você corria atrás de mim para me bater... – Os dois sorriram se
recordando desse momento em que um deles estava prestes a se tornar adulto, mas
ainda assim, não passavam das mesmas crianças de sempre. Contudo, esse riso não
ficou aparente na voz nem de um nem de outro, e como não estavam se olhando,
nenhum suspeitou do sorriso sublime que estava estampado na face deles – Durante
a festa estava decidido a não sair do seu lado. Mas do nada a Lyan chegou e me
chamou para dançar, nesse momento, você estava dançando com alguma amiga sua,
então aceitei, dançamos por um tempo e então ela disse em meu ouvido “Tem mais uma surpresa preparado por mim,
que está lhe esperando dentro daquele quarto. Certamente, essa surpresa será um
presente mútuo, creio que irá gostar tanto quanto eu”. Eu não entendi sobre
o que ela se referia, mas fiquei curioso, mas ainda estava decidido a não sair
do seu lado, então quando estava prestes a me soltar... Ela me beijou
rapidamente e quando me afastei ela sussurrou “End... Eu sei dos seus sentimentos, mas acha mesmo que isso daria certo
entre vocês? Conheço meu primo. Não estou certa de que ele se sinta da mesma
forma com relação a você. Nesse quesito, eu posso lhe oferecer bem mais, não
acha? Talvez você esteja confuso por nunca ter tido nenhuma experiência
completa com uma mulher. Então... Que tal experimentar pelo menos essa noite
comigo?”. Não acreditei no que estava ouvindo, para falar a verdade ainda
estava sem reação devido ao beijo. Depois somente a senti colocando minha mão
sobre a bunda dela, de forma discreta. Quando voltei a mim, eu segurei a mão
dela e a levei para dentro do quarto para ter uma conversa séria com ela.
A expressão que Nuno tinha em sua face era de extremo
abismo. Não era possível identificar quais sentimentos o habitavam naquele
momento. Ele nunca soube que aquela menina era na verdade a sua tão amada prima
e amiga de infância e saber disso naquele momento, o deixou sem saber como
lidar com a situação. Ender não percebeu isso por estar envolvido demais nessa
parte de sua narrativa, de modo que estava alheio ao vulcão em ebulição ao seu
lado.
- Quando entramos no quarto ela tentou me beijar. Mas
a segurei pelos ombros e disse que não estava certo, que não me sentia assim
por ela, e pela primeira vez eu disse tudo que estava em meu coração para
alguém. Ela me ouviu com os olhos arregalados de surpresa enquanto eu contava
tudo o que passamos durante o dia e como eu havia me sentido e falei sobre como
pretendia me declarar para você. Mas depois fomos interrompidos por uma sombra
que se moveu dentro daquele quarto. Assustamo-nos. Em nenhum momento percebemos
a presença de outra pessoa ali. Quando acendemos a lâmpada, percebi que era meu
irmão. Ele estava sentado em uma cama velha enquanto segurava uma flor amarela,
ele olhou para a Lyan e com um tom de ameaça que eu reconhecia desde que éramos
pequenos, disse “Saia!”. Mas ela
hesitou olhando de um para o outro. Até então nem ela nem você, o tinha visto,
nem mesmo em foto. Então, acho que ela ficou confusa devido a nossa semelhança.
Ele voltou sua atenção para mim, e somente pelo olhar que recebi, percebi que
não seria bom ela estar ali. Então disse para ela sair e procurar por você...
Nesse momento Nuno começou a prestar mais atenção à
história de Ender.
“Algo não está certo nessa história, até ai
as histórias coincidem, aposto que elas são diferentes a partir desse momento”
– Ele pensava enquanto continuava ouvindo.
-... Meu irmão
e eu, nunca nos demos muito bem. Portanto, me surpreendi somente por ele estar
lá. E mais ainda quando ele se aproximou de mim e me abraçou me dando os
parabéns. Quando fui agradecer a ele... Recebi um soco na barriga de modo que
eu acabei me curvando com a falta de ar e ele começou a me bater cada vez mais,
quando ele parou, pegou minha cabeça com suas mãos e ergueu minha cabeça até
olhar em meus olhos enquanto dizia várias coisas para mim “Como pode desonrar a mim dessa forma? Não o aceito que seja tão baixo
a esse ponto! Vou te ensinar a como não tentar entrar no meu caminho! Vou te
mostrar como eu sempre serei superior a você! Vou te mostrar como eu e meu
namoradinho somos perfeitos juntos e como você não conseguirá nada com ele! Até
porque ele já tem dono! Realmente não acredito que você planejava me dar uma
apunhalada dessa pelas costas, irmãozinho! Eu vim hoje somente a pedido dele, e
é assim que você me retribui? Tentando roubá-lo de mim?”. Eu não entendia
nada, não sabia de que namorado ele estava falando. Tudo o que sentia eram meus
ossos doendo por causa das pancadas que recebi. Depois disso ele me levantou. Eu
estava tonto da bebida e dos socos que havia recebido. Eu sempre fui forte e
ágil, mas meu irmão... Sempre me superou em todos os quesitos no que se refere
à força, tentar revidar seria suicídio. Sendo assim... Deixei com que ele me
guiasse por uma porta aos fundos do quarto que dava em outro quarto. “Vou te dar seu presente de aniversário
amanhã irmãozinho. Acredite, vai ser o melhor presente da sua vida. Agora se me
permite, tenho assuntos a tratar com o MEU namorado”.
Nesse momento Nuno já suspeitava do que tinha
acontecido... Contudo, ele simplesmente não conseguia imaginar isso
acontecendo. Passou tanto tempo construindo em sua mente a certeza de que Ender
era o culpado, que pensar em outra possibilidade que o tornasse inocente, o
perturbava profundamente.
“Porque seu
irmão faria isso? Em que momento eu tenho culpa na relação de vocês? Essa
história não tem sentido algum... É... É... É tudo... Uma grande farsa. Mas
quem está mentindo? Sei o que vi e senti, sei que era você... Mas... Agora não
posso deixar de pensar na possibilidade de não ter sido você... Mas tudo era
tão familiar, não teria como eu confundir vocês dois”...
- Ele me trancou. Sem o que fazer me sentei no chão
tentando restaurar minhas forças e me recuperar um pouco do efeito do álcool
para talvez, ver se conseguia revidar de algum modo, quando ele voltasse. Após
alguns minutos escutei alguém entrando, e para minha surpresa era você. Tentei
levantar-me, mas meu corpo doía, então escutei você chamando meu sobrenome... E
paralisei... Se fosse meu nome eu teria respondido na hora, mas como foi meu
sobrenome, não pude evitar associar o que eu havia dito a Lyan e a situação que
aconteceu com meu irmão depois, sobre ele dizer que eu estava tentando roubar o
namorado dele, e também, me lembrei de que a Lyan me disse que todos tinham
sido estritamente selecionados por você, que você mesmo que havia enviado todos
os convites, por que você sabia quem eu gostaria que estivesse presente e quem
não gostaria que estivesse. Isso tudo me trouxe uma hipótese que doeu mais que
os socos que havia levado, dessa forma... Fiquei em silêncio. Depois escutei alguns
barulhos... Depois gemidos abafados por umas vozes que eu reconheceria em
qualquer lugar. Simplesmente não queria pensar no que estava acontecendo, então
tentei tapar meus ouvidos a todo custo para não ouvir nada. Mas ainda assim...
Eu imaginava aquelas cenas horríveis que partiam meu coração, como você
beijando meu irmão e ficando com ele e ele pondo as mãos imundas dele em seu
corpo... Não sei por quanto tempo fiquei nessa tortura. Parecerão horas para
mim...
Somente o silêncio reinou pela pausa que Ender fez. O
que quebrou o silêncio e motivou Ender a continuar, foi o som de chuva
começando a cair.
- Quando tudo silenciou... A única coisa que fiz foi
chorar igual uma criança... Chorei e chorei por um longo tempo... Sentia-me
rasgado em dois... Chorei até acabar adormecendo. Acordei com algo sendo
passado por baixo da porta. Era meu celular e junto com ele tinha um bilhete
que estava escrito “Feliz Aniversário de
Nuno e Enzo – Divirta-se assistindo ao vídeo de 2 horas que deixamos de
presente”... Eu não acreditei no que lia, e por pura burrice optei por
assistir. Acho que ainda no fundo eu estava com esperanças de que tudo não passava
de um trote ou de um sonho... Mas o que vi me destroçou de todas as formas
possíveis. Eu via claramente toda a cena. Eu realmente acreditei em cada
detalhe daquele vídeo, parecia que tudo era tudo por pura vontade sua. O áudio
do vídeo inteiro era preenchido com sua voz, gemendo cada vez mais alto em
conjunto com a dele. Eu surtei até o ponto de quebrar meu celular inteiro. Não
queria que ficasse um único pedaço inteiro. No fim da tarde... Ele voltou e
abriu a porta, e a primeira coisa que fiz foi avançar para bater nele até
mata-lo. Mas fui subjugado com uma facilidade que até hoje me aborrece de
pensar – Ender fechou seus punhos e olhou para o lado, expressando seu ódio – Meu
dia finalmente terminou com as palavras finais dele “Essa foi à primeira de muitas outras que virão irmãozinho. Ainda vou
tirar muitas outras coisas da sua vida. Assim como você tirou da minha. Então,
se acostume a perder tudo o que acha que é seu”. Depois disso ele me largou
e saiu. Quando consegui me colocar em pé e sair, não havia indícios de você em
nenhum lugar. Mas eu podia sentir seu cheiro, podia ver os retalhos de suas
roupas, podia ver as marcas sobre a cama de seu corpo, e era como se eu tivesse
presenciando tudo com meus próprios olhos. Nesse dia, eu decidi retirá-lo da
minha vida – Ele riu de forma amarga – Acho que ambos escolhemos isso afinal...
A cada segundo a chuva ficava mais forte, logo se
transformando em um forte torrencial. Ao fundo se podia ouvir os sons dos
trovões que se aproximavam. Nuno ouvia tudo isso, mas de forma distante, sem
que realmente percebesse o que estava acontecendo no exterior da casa, ele
estava preso dentro de si, buscando algo que retirasse sua dúvida entre se era
ou não Ender naquele dia.
- Quando tentei te ligar para ouvir da sua própria
boca o que havia acontecido entre você e meu irmão. Você me atendeu e disse que
nunca mais em toda sua vida queria me ver novamente e que meu irmão estava
certo em dizer que eu era um idiota imprestável e egoísta e então desligou...
Essa foi à resposta que confirmou minhas dúvidas com relação a vocês e então
por mais que me doesse... Decidi esquecer tudo o que vivi com você, deixando
somente a Lyan ao meu lado. Hoje vejo isso como se eu tentasse me vingar “Já que você está com meu irmão, vou ficar
com sua prima e melhor amiga pra mim”. Mas ela ainda me informava uma coisa
ou outra sobre você. No começo eram noticias que vinham de semana em semana,
depois de mês em mês, depois ano em ano e depois mais nada. Você havia sumido.
Então aos poucos... A mágoa e o rancor foram substituindo todos os momentos
felizes que tive com você, e passei a odiá-lo assim como você me odiava, ou
pelo menos era o que eu achava até hoje, quando depois de todos esses anos,
reencontro você, com esse sorriso, essa atitude, essa mania de morder os lábios
quando está pensando em algo, exatamente como esta fazendo agora, reencontro
com tudo o que faz ser Você... E percebo que nunca fui capaz de odiá-lo e que
tudo que senti foi saudades de estar com você...
Ender olhou para Nuno, lentamente suas esperanças foram
sendo destruídas conforme o silêncio dele persistia. “Ele nem sequer está olhando para mim... Ele nem ouviu as últimas
palavras da minha história”.
- Então... Essa é a minha história... Cumpri minha
palavra lhe contando minha versão... Obrigado por ter salvado a minha vida. Não
tenho palavras para expressar minha gratidão... Agora, é melhor eu ir... –
Ender se sentia em um monólogo, Nuno não agia diferente de uma estátua.
Ele encarou o “garoto
iludido” por um tempo, absorvendo cada detalhe daquele rosto enquanto
pensava “Espero que minha história algum
dia ultrapasse essa muralha que construiu ao seu redor e perceba quem realmente
nos fez mal. Nunca vou perdoá-lo por ter feito isso com você. Juro! Sairei hoje
da sua vida novamente e farei questão de levar aquele miserável para o inferno
junto comigo”.
Reunindo as poucas forças que conseguiu acumular desde
o tempo em que havia acordado, Ender começou a levantar-se. Ele sentia seus
músculos protestando após o longo tempo sem terem sido utilizados, mas suportou
a dor em silêncio. Diferente da primeira vez, ele aos poucos conseguiu se
sentar direito na cama, retirar o cobertor de sua perna e com a ajuda das mãos,
girar seu corpo na cama até suas pernas ficarem para fora do colchão. Todo o
processo para que finalmente ficasse de pé levou cerca de 10 minutos, e quando
ele ficou de pé se segurando na parede, gotas de suor já cobriam todo o seu
corpo.
Um passo de cada vez, ele caminhou até a porta, quando
a abriu um par de olhos azuis estava encarando a porta. Quando ele saiu e
trancou a porta atrás de si, um rosnado foi ouvido, de alguma forma para ele
soou como um “Quem o deixou sair? Não tem
permissão volte para o quarto. Já!”.
- Ei garota! Fique calma, okay? Só vou dar um pequeno
passeio – Ender mal conseguia respirar, falar então... Era como se facas
atravessassem seu peito. Os rosnados pararam, e Dobby se levantou e ficou
olhando para Ender, enquanto ele se afastava lentamente, arrastando sua perna,
que aos poucos começava a sangrar, manchando a calça azul.
Ao chegar à escada, Ender encarou cada degrau que
teria de enfrentar até alcançar o final “Você
realmente gosta de complicar minha vida, não é? Não tinha um quarto no térreo
para me jogar?”. Enquanto ele pensava isso... Outro ser estava tendo seus
próprios pensamentos acerca da situação.
Dobby ao ver Ender começando a descer as escadas
começou a farejar a base da porta do quarto de Nuno, verificando se o cheiro
dele estava lá dentro, quando o identificou, ela começou a arranhar o piso
próximo a porta com as suas garras, como se tentasse desesperadamente cavar um
buraco em que conseguisse passar. Ela dividia sua atenção entre arranhar e ir
até a escada ver se aquele homem estava ainda ali, mas sempre mantendo uma
distancia dele, ela nunca desobedecia a uma ordem de seu Pai. Ela não podia se
aproximar dele. Essa era a ordem. Mas ele estava indo embora, e ela não
entendia isso, algo estava errado. Quando ela voltou para ver se ele ainda
estava nas escadas e não o viu, seus instintos ficarão eufóricos, principalmente
ao sentir o cheiro de sangue fresco...
Ela correu descendo as escadas, farejando, balançando
as orelhas. Ao chegar à sala, Ender já estava tentando abrir a porta. Vendo
isso. Ela começou a latir, tentando alertar que ele estava saindo, quando
percebeu que ninguém estava vindo, ela passou a uivar, ainda sem ninguém vir,
ela se viu em conflito entre correr para a porta do quarto e tentar passar por
ela ou tentar impedir aquele homem de sair. Sua decisão foi tomada quando ela o
viu abrir a porta e sair cambaleando, formando pequenas poças de sangue ao por
sua perna no chão. Ela correu até ele e ficou o circulando, latindo, tentando o
ameaçar para que assim, ele voltasse para dentro da casa. O desespero de seus
latidos era nítido, às vezes ela parava e somente choramingava como se
suplicando para que ele não continuasse descendo as escadas da varanda.
“Mas que
inferno de cachorra é essa? Não pode calar a boca um segundo?” – Apesar de Ender estar começando a odiá-la, não era possível evitar
se surpreender com a inteligência que ela demonstrava. Ela sabia exatamente o
que estava fazendo. Quando ele viu a escada da varanda e a forte chuva que
caia, ele quase pensou em desistir e se sentar ali mesmo, mas ele se manteria
fiel a sua palavra. Ele iria embora. Nem que tivesse que se arrastar.
Até a base da escada foi fácil, o problema vinha
depois. Até então ele tinha onde se segurar e apoiar, depois disso, ele estaria
por conta própria. Ele esperou por alguns segundos na base da escada, tentando
a todo custo manter a consciência, ele sabia que estava chegando ao seu limite,
afinal ele estava sentindo algo que ele só sentia quando estava doente. Frio...
Se esforçando, ele soltou as barras da escada e deu um passo, se concentrando
em somente não cair e ignorando os latidos ensurdecedores daquela cadela
maldita. Após cerca de 7 passos sob aquela chuva, ele decidiu olhar para trás e
ver o processo que havia conseguido realizar, para seu desânimo não era
absolutamente nada.
De repente a única coisa que viu foi um forte clarão
provocado por um raio. Isso o cegou por um momento o obrigando a fechar os
olhos, quando os abriu, tudo havia sumido. Não conseguia ver a casa que até
pouco tempo estava olhando, por um breve, momento achou que tivesse,
finalmente, desmaiado, mas então os latidos voltaram cada vez mais fortes,
sendo abafados somente pelos estrondos dos trovões.
“Vamos lá
Ender! Você ainda esta acordado. Somente pense em como você vai matar aquele
desgraçado, se concentre somente nesse objetivo”.
Nuno ainda estava na mesma posição que esteve nas
últimas duas horas, seu cérebro estava quase entrando em colapso nervoso. Ele
havia mergulhado fundo dentro de si, buscando um único detalhe que inocentasse
aquele cara idiota ao seu lado. Ele estava tão distraído em seus próprios
pensamentos não percebeu que estava sozinho dentro do quarto, nem ouviu os
barulhos que preenchiam o ar. Ele só começou a voltar a si, quando tudo ficou
escuro dentro do quarto. Mas ainda assim, estava distraído. Quando realmente
despertou, foi após um forte estrondo atingir a porta. Ele olhou para onde o
som foi provocado, sua visão apesar de ter sido corrigida cirurgicamente, ainda
era precária durante a noite. Quando ele olhou para a cama, não distinguiu o
contorno de um corpo ali. Ele se levantou rapidamente e após um raio iluminar o
quarto ele viu que realmente não havia ninguém na cama, então ele lembrou.
“Só me diga como,
quando e o que falei para você me odiar tanto e sairei da sua casa agora mesmo,
nem que eu tenha que me arrastar para isso”.
-
Merda... Aquele imbecil realmente saiu – Outra vez houve um estrondo na porta e
logo após latidos – Dobby! – Nuno antes de ir para a porta, correu até o closet
e começou a procurar pelas gavetas por um cinto, quando achou, ele correu para
a porta. Assim que a abriu, Dobby pulou sobre ele, mordendo a manga de seu
pijama e o puxando. Nuno aproveitou a oportunidade para passar o cinto na
coleira dela – Me leve até ele! – Ambos saíram correndo. Nuno quase se
desequilibrou ao descer as escadas, mas se apoiou a tempo. Ao chegar à varanda,
ele parou enquanto encarava a chuva que caia e prometia em silêncio “Não deixarei você ir assim tão fácil, seu
idiota!”. Após isso ele seguiu Dobby debaixo da chuva e em meio à escuridão
da noite.
Informações:
¹.
Esse
é o link da música que tocava no momento. O sentido que teve para ele é de
expressar o que sente sem se importar com o que os outros iriam pensar sobre
suas atitudes, pois essas pessoas nunca o entenderia, só importando que uma
única pessoa o entendesse: https://youtu.be/NdYWuo9OFAw.
². Os lírios são flores muito mencionadas em livros sagrados, como é o caso
da Bíblia. Pureza, castidade e inocência estão entre os principais símbolos
remetidos a essas flores. O Lírio Amarelo:
Significa uma amizade que deseja tornar-se um romance, mas indica também
decepção e desengano.
4. Essa
música tem grande significado para os dois. Ela irá aparecer novamente em um
outro momento na história, só que com outro significado: https://youtu.be/O-fyNgHdmLI.
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